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litosfera acaba aqui

notas sobre o trabalho

floresta glitch é uma obra digital interativa em desenvolvimento que imagina um espaço de passagens entre paisagens, uma interface game-like, que se utiliza dos gestos da natureza própria do browser e de navegar na internet, considerando o ‘navegar’ enquanto passear por, caminhar por, flanar por, perambular por, errar por, wander through e brincar com, to play with, ressignificando gestos automáticos como o scroll vertical, por exemplo, adicionando horizontalidades, scrolls horizontais, montando um espaço no qual quem acessa é instigado a uma participação ativa com esta interface, sendo menos o visitante de um site, para ser caminhante.​

(...)


Numa espécie de paisagem híbrida entre natureza e tecnologia, floresta glitch dialoga com diferentes temporalidades que remontam desde o começo da computaçao gráfica, e se estende às formulações de obras retrô como o jogo DOS 1992 Cosmo Cosmic Adventure, o jogo text-based Unhallowed, passando por Exu e a encruzilhada do Candomblé afro-brasileiro, os encantados da floresta das cosmlogias indígenas, conversando e tendo como base conceitual, perspectivas contemporâneas como o Glitch Feminism, de Legacy Russell, aproximando-se de abordagens do corpo como matéria física e simbólica, no ambiente virtual, e nesse caso, uma floresta virtual enquanto corpo, bem como ideia poética de Gordon Matta-Clark quando escreveu em um de seus cartões de anotações que: a forest is a woven underground (uma floresta é um subterrâneo tecido.)

(...)


a estrutura inicial da obra se organiza a partir de uma imagem espelhada, onde o subsolo emerge como duplicação da superfície. Esse duplo se expande, abrindo um campo rizomático onde formas e fluxos se desviam e se multiplicam em fluxos que acabam por compor o que chamo de Córporea-imagética — paisagem imaginada corpórea — que são as imagens que um corpo, nesse caso, um bioma, uma floresta, se torna passível de modular e reverberar numa relação com outros corpos e elementos: humanos, animais, plantas, máquinas, instrumentos, objetos, vento, fogo, água, etc. Córporea-imagética vai se compondo e (de)compondo com as histórias que podemos ir gerando, criando e contando, que transitam em nosso corpo, em nossos territórios de criação e existência.

floresta glitch se estrutura como um ambiente navegável em camadas, que atravessa céu, superfície, sistemas radiculares e subsolo até alcançar o lençol freático e regiões profundas de dentro da terra, reencenando um modo de ver o mundo, o trabalho se inspira na visualidade de ilustrações científicas, especialmente diagramas geológicos que organizam a Terra em camadas. Esses esquemas, tradicionalmente utilizados para explicar e estabilizar o mundo, são aqui reconfigurados como ambiente navegável, instável e sensorial. O que era diagrama torna-se experiência, e o que era explicação transforma-se em lugar de devaneio.

o corte geológico vira ambiente navegável, uma paisagem audiovisual transbordante e um espaço de criação e um campo de memória ora em movimento, ora em repouso. Os sons e as imagens que lhes atravessam não estão isolados no tempo; eles carregam consigo resquícios de outros tempos, de outros transbordamentos, como a própria Chapada Diamantina, que um dia, bilhões de anos atrás, habitou mares, e que ressoam na atualidade potente do agora. Um campo elétrico onde o passado, o presente e o futuro, se tocam numa atualidade potente. No que Walter Benjamin chamou de Jetztzeit — o tempo do agora — que não é o da presentificação linear, mas um agora carregado dessa atualidade potente onde os tempos se encontram gerando um relâmpago — o momento de irrupção em que a história deixa de ser vista como uma sequência linear e se transforma em uma constelação. Nesse momento, as imagens se congelam, são dialéticas e, como frames de um filme, ficam passíveis de montagens variadas.

floresta glitch então, nessa perspectiva, propõe criar em fluxo num tecido vibrátil de sobrevivências, de potências em suspensão a serem descobertas naquele território virtual. O deslocamento vertical, realizado pelo scroll, é atravessado por fluxos horizontais, como na camada da água subterrânea, por exemplo, onde correntes visuais e sonoras instauram outras direções de tempo e movimento. Cada estrato possui uma paisagem sonora própria, ativada por interação, compondo uma escuta imaginada desses ambientes. O trabalho compreende a floresta como uma trama de conexões invisíveis, e a essa dimensão, soma-se camadas sonoras que perpassam os estratos da paisagem, sugerindo que a floresta também se tece em vibração e escuta, em diferentes níveis do ambiente, do visível ao oculto.

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imagens de referência

a idéia é ir descendo a página com o scroll vertical até o centro da terra, a partir de um recorte da região da zona da Mata Atlântica até o sertão baiano, tendo como coração desse eixo a Chapada Diamantina.

Scrolls horizontais vão aparecendo, cruzando essa coluna vertebral.

do chão, com o sol na cabeça, ao subsolo,
passando por paisagens imaginadas de rizomas, grutas, pedras, águas que infiltram nas rochas e vão gerando lençóis freáticos,
até o lençol freático impermeável mais profundo. 

a partir daí, vai descendo mais, até chegar ao núcleo da terra.








 

camadas da terra 10.png
camadas da terra 4.png
camadas da terra 9.png
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astenosfera começa aqui

descendo as camadas

até o núcleo de fogo terrestre

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